quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Resgate Emocional dos Mineiros Chilenos. Somos co-responsáveis?

Em 13 de outubro deste ano, após 69 dias de confinamento, a cápsula FÊNIX 2, às 0:10 h do Chile, emergiu com o primeiro mineiro resgatado: o Sr. Florencio Avalos, que foi recebido por braços e abraços emocionados de seu filho de 7 anos e sua mulher e, logo depois, do presidente Sebastian Piñera. Metaforicamente, um parto presenciado por centenas de pessoas, num acampamento de apoio e entorno emocional, afetivo, ansioso, agitado e super energizado, não apenas denominado de Esperanza, mas simbolizado pelo desejo e a fé e partos exitosos, de um útero de 33 gemelares a 622 metros de profundidade.
O mundo fez o papel de platéia, e um simbolismo universal, em vários credos e línguas, projetavam os mais profundos dilemas humanos entre a vida e a morte, entre a impotência e a capacidade de salvamento, da inédita operação de resgate San Lorenzo.
Quem de nós, desde Platão, não tem medo e atração por mistérios de cavernas escuras, e essa, concretizada nas entranhas da Terra? Uma história que supera qualquer projeção de um reality show, com a espetacularidade hollywoodiana; mas também com a intensidade de solidariedade e emoção mundial! Uma emoção de compartilhar um destino coletivo, em situações limites da experiência humana, onde perfis psicológicos ganham palco para novos e específicos papéis de heroísmo digno de uma odisséia, que ultrapassa a do grupo de 33 e atinge a da espécie humana. Neil Armstrong, na odisséia lunar, disse que dava um passo pequeno como homem, mas um salto para a humanidade. O resgate da mina San Jose, no Chile, pela capsula Fênix 2, resgatando homens submetidos a um grande pesadelo humano, que é o de ser enterrado vivo, teve conotações de mitos, como o do pássaro Fênix, que renasceu das cinzas.
Vejamos as palavras chave dessa odisséia: Fênix, Esperanza, salvação, extremos, medos, organização, liderança, triunfo, limites e milagres.
A frase do primeiro mineiro resgatado pela Fênix 2 foi: “Oxalá o exemplo dos mineiros fique para sempre conosco, porque os mineiros demonstraram que, quando o Chile se une, somos capazes de qualquer coisa”. Assim enaltecia Avalos, a força mítica da união e do amor, aliados à tecnologia. Tentemos substituir, nessa frase, a palavra Chile por: família, equipe, amantes, casais, irmãos, partidos, empresas e grupos, entre outros, e observemos como ela é protagônica de nossos anseios humanos.
Da raiz indoeuropéia ter (usar quebrando) e do grego titroskein (ferir, deteriorar) e troma (ferida, dano, desastre) a palavra traumatikos, depois traumaticus que nos oferece o atual termo: traumático; o trauma é uma resposta do sistema nervoso e não tem origem no evento. Podemos dizer que ele é um estado severo de medo, que vivenciamos quando somos confrontados com um evento repentino e inesperado, potencialmente ameaçador à vida, sobre o qual não temos nenhum controle (Flannery, 1994). O trauma acontece quando o organismo é forçado além de sua capacidade adaptativa, para regular os estados de ativação de luta ou fuga.
Como um acontecimento se transforma em trauma? Apesar de a ansiedade estar presente em todos os seres humanos, alguns indivíduos a manifestam com intensidade e duração exacerbadas, impedindo a continuidade equilibrada da vida. É o caso de boa parte das pessoas que sofreram traumas: um acontecimento se transforma em trauma quando o seu sistema é sobrecarregado cronicamente.
Como o trauma se apresenta? As lembranças do trauma geralmente estão fragmentadas em imagens, sons, odores, sensações físicas (náuseas, tonturas e outras) ou emoções (aversão, nojo, medo, pavor, raiva, tristeza) não integradas a outras memórias autobiográficas. Estímulos relacionados ao evento traumático, específicos e/ou genéricos, podem reativar as memórias que retornam muito mais fortes que uma simples recordação, com nitidez visual e forte expressão emocional, provocando a revivência do evento que foi traumagênico.
Traumas podem afetar o funcionamento cognitivo, a saúde física e as relações interpessoais.
Moty Benyakar (2006), psiquiatra e grande pesquisador argentino desta temática, diz que a noção de trauma é inerente à complexidade da existência humana e que a área da traumatologia estuda as conseqüências psicossociais mediatas e imediatas dos eventos disruptivos, que podem ocorrer.
Todos nós, seres humanos e animais em geral, temos uma fisiologia de resposta ao perigo. O nosso sistema nervoso autônomo regula funções básicas do corpo, incluindo o sistema visceral, ou nossos órgãos internos e tem duas ramificações: o Sistema Nervoso Simpático e o Sistema Nervoso Parassimpático. O (SNS) é ativado quando estamos alertas, excitados ou envolvidos em atividades físicas; e nos prepara para enfrentar emergências e ameaças. Ele prepara para o perigo, luta ou fuga. Já o Sistema Nervoso Parassimpático (SNP) é o que ajuda a relaxar, reorganizar e regenerar, após a ameaça ou perigo.
Trabalhamos enquanto psicoterapeutas, com crianças, adolescentes e adultos, com histórias de traumas, com terapia de EMDR (Eye Movement Desensitization and Reprocessing) ou Movimento Ocular, Dessensibilização e Reprocessamento. Esta abordagem terapêutica busca a integração emocional e cognitiva da experiência que resultou em trauma.
Shapiro (2002), criadora do EMDR, diz que a busca do processo de informação adaptativa facilita ao terapeuta um procedimento para identificar os acontecimentos passados que contribuem ao problema, os acontecimentos atuais que o desencadeiam e as habilidades e recursos internos que necessitam ser incorporados, para uma vida plena e saudável.
Pesquisas em mais de 70 países mostram como o EMDR traz bons resultados com pessoas vítimas de um único acontecimento traumático (Rubin, 2003), com cerca de algumas sessões (3 a 8) de 90 minutos. Com situações de trauma repetidos, como abusos sexuais, físicos e psicológicos ao longo da infância, o tratamento exige um tempo bem mais longo, dependendo do caso.
Como nenhum homem é uma ilha e vive isolado, é importante focalizar a dimensão psicossocial do trauma na saúde mental das pessoas. Este deve estar situado em coordenadas sócio-históricas bem como seus diversos entornos. Historizar a dor de onde vem, que razões ela possui e quais personagens e protagonistas estão presentes, é fundamental.
Nos Programas de Ajuda Humanitária Psicológica – PAHP - que fazemos desde 2008, ainda encontramos pessoas que explicam o sintoma, pós-tragédias, especialmente as dissociações, como coisa do demônio ou espirituais.
Quero aqui refletir sobre o cuidado que nós, os psicoterapeutas, devemos ter em não nos limitarmos apenas aos aspectos observáveis dos eventos catastróficos ou traumatogênicos, bem como aos sintomas, especialmente do chamado Transtorno de Estresse Pós-Traumático – TEPT, (Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais, DSM – IV), mas também às forças e ao crescimento de pessoas que vivem experiências potencialmente traumáticas. Precisamos observar como circunstâncias internas e externas das pessoas e de suas redes sociais, podem constituir as forças que chamamos de resilientes, pois, após a superação trazem “empoderamento” às vítimas de catástrofes, por exemplo.
O trabalho do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP) nasceu desta concepção: de nossa crença na busca do desenvolvimento de forças internas dos desabrigados e danificados de catástrofes naturais e provocadas pelo homem, para a construção de entornos de redes sociais e emocionais mais resilientes nos indivíduos e nos grupos.
Os métodos utilizados no Programa de Ajuda Humanitária Psicológica - PAHP também incluem a busca da resignificação do entorno interno das pessoas afetadas, favorecendo situações onde possam se sentir mais seguras e relaxadas emocionalmente, para enfrentar as decorrências e lembranças dos temores das catástrofes. Tentamos oferecer recursos de aprendizagem de controle da não manutenção das aprendizagens de reações de estresses, para que as pessoas danificadas por catástrofes, através de dinâmicas sistêmicas interpessoais e intrapsíquicas, possam ser ajudadas, além da superação, para o fortalecimento de suas vinculações para a vida, para a recuperação e o resgate da saúde, da auto-estima e do sentimento de dignidade em ser um ser humano.
Uma boa formação sobre os eventos, o fato de que cada um saber o que fazer nestas situações, quais são as instituições responsáveis para lidar com esses acontecimentos e lugares aos quais recorrer, entre outros, tem um papel importante. Capacitação é necessária, nestes casos, para preparar as pessoas para descobrirem os seus próprios recursos para resolver estas situações.
Neste Programa de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP) ganhamos como parceiros inestimáveis, jornalistas da Associação Brasileira de Jornalistas de Empresas, ABERJE, que, atendendo aos nossos apelos de apoio para essa educação da população afetada por catástrofes, criaram o chamado Comunicadores Sem Fronteiras (CSF), cuja meta é, através dos recursos da mídia local, passar informações às pessoas sobre o funcionamento do PAHP no local, bem como sobre os sintomas esperados nessas circunstâncias.
Numa catástrofe natural podemos trabalhar em três momentos especiais: a fase do pré-impacto, quando se pode avisar a população, com alguma antecedência; a do impacto propriamente dito e a do pós-impacto, quando se fazem as avaliações de danos materiais e humanos.
O Programa de Ajuda Humanitária Psicológica - PAHP trabalha as segunda e terceira fases: a do impacto e a do pós-impacto, com a fase de “lua de mel” de ajudas e solidariedade e quando chegam os auxílios de abrigos, roupas, alimentos e remédios. E depois, a “fase da desilusão”, quando há interrupção desses apoios e as pessoas podem ter que enfrentar problemas, que poderão continuar para o resto de suas vidas, como, por exemplo a experiência de ficarem “abandonados” em confinamentos de abrigos..
Os efeitos mentais das catástrofes podem acarretar estresses pós-traumáticos e gerar sequelas altamente danosas ao desenvolvimento das futuras gerações. Em contextos sociais pós-catástrofes, são potencializadas as mazelas da pedofilia, do abuso sexual intrafamiliar, das agressões dos mais diversos níveis, do abandono das crianças, do desligamento social dos adultos, do abandono das atividades cotidianas, da desestruturação da família e do desaparecimento das perspectivas de futuro.
A idéia de resiliência significa que de, alguma forma, os indivíduos poderiam escapar de um destino inevitável, se eles forem os fatores que aumentam a sua capacidade de suportar o impacto psicológico normal de um evento.
Ressalto que não apenas as pessoas danificadas diretamente e que perderam seus lares, ou ficaram confinados, como os 33 mineiros chilenos, precisam de um trabalho psicológico, mas, também, seus familiares e todos os envolvidos no evento, como: socorristas, médicos, enfermeiros, bombeiros, militares, policiais e voluntários, entre outros. Além, é claro, da equipe do Programa de Ajuda Humanitária Psicológica - PAHP, com atendimentos psicoterapêuticos e de supervisão diários.
Atendemos nestes PAHP, seis mil pessoas e capacitamos 180 psicólogos junto ao Rotary de São Paulo – Butantã, de Blumenau, Ilhota, Gaspar e Guarapicaba, de São Luís do Maranhão, de Santana do Parnaíba em São Paulo e de Niterói na queda dos morros ente ano. Com a filosofia de que uma Psicologia para a Humanidade é um compromisso de cidadania e de comprometimento da ciência nesta era pós-moderna. O que acontecerá e está acontecendo no mundo interno desses 33 seres humanos?
O mundo intrapsíquico é altamente complexo, mas podemos hipotetizar algumas questões.
Em primeiro lugar, lembrar que nem todos que vivem um evento traumatogênico, ou seja, que tem potencial traumático, terá problemas a posteriori.
O entorno familiar e social colaborarão para essa especulação diagnóstica. Evitar ao máximo super exposição e super proteção, são eficazes recomendações. Todos foram danificados pelo evento, mas não necessariamente vitimizados. As vítimas se enfraquecem e os danificados buscam tratar-se e evoluir. Isto não é um jogo de palavras, mas sim um alerta a que tipo de construções, mais ou menos saudáveis emocionalmente, podemos elaborar coletivamente, nas relações humanas.
Algumas reações são usuais como: hiperexcitação, flashbacks, insônia, irritabilidade, sintomas de depressão, hipervigilância, uso abusivo de álcool, dificuldade de concentração, disfunções sexuais e distúrbios alimentares, entre outros; são esperados para as primeiras seis semanas. Todavia, se prosseguirem, serão sinais de alerta e atenção para encaminhamentos para tratamento mais específicos.
Há pesquisas que mostram que sintomas e sinais pós-incidentes críticos, podem surgir bem mais tarde, até em torno de dez anos. Portanto, terapias que se propõem a tratar preventivamente esses 33 mineiros são recomendáveis. O EMDR é uma abordagem terapêutica altamente indicada para estas situações. Sugiro, ainda, que se indiquem terapias de prevenção, com EMDR, para as chamadas traumatizações secundárias, ou seja, dirigidas aos que vivenciaram indiretamente o drama da mina; aos familiares e pessoas da comunidade que convivem com esses homens. Se o contexto local, social e familiar for tratado, esclarecido e orientado, terão, esses mineiros, uma sustentação de entorno altamente terapêutica e preventiva.
Em minha experiência, junto aos colegas do Projeto de Ajuda Humanitária Psicológica (PAHP), palestras, oficinas e intervenções terapêuticas grupais, com os chamados Sociodramas Construtivistas (Moreno, 1974; Zampieri, 1996) propiciam o reprocessamento das cenas vividas nas catástrofes e nos confinamentos de abrigos. Sentimentos de culpa, de onipotência e fracasso, frente às forças das agressões vividas, podem ser reconotados por outros, positivos e saudáveis, que ajudam as pessoas a elaborar melhor seus limites e seus alcances.
Outra questão, dentro desta complexidade, são os aspectos idiossincráticos de cada um dos 33 mineiros, nos níveis: biológico, de personalidade, de traumas anteriores vividos, tratados ou não; de influência de recuperação emocional aprendidas em suas famílias, cultura e religiões; além dos aspectos espirituais, entre outros.
Que a saúde mental, em seus vários segmentos possa ser cada vez mais preventiva para evitar que pessoas moral e eticamente justas, participem de ações destruidoras de nosso bem estar comum! Uma educação para a consciência e a resiliência é um dos maiores desafios de nossa sociedade, em casos como este.
Só vejo um grande risco do entorno mundial desses 33 mineiros: o da simplificação, negação, minimização ou maximização do que seus medos internos elaborarão a partir desse “soterramento” dos “partos” da Fênix 2. Se pudermos ser um sustento emocional seguro e ponderado, onde eles não serão heróis nem vítimas; onde eles não serão levados, inconsequentemente, às alturas de gloriosos, para abandonos posteriores; poderemos ser, direta ou indiretamente, co-responsáveis por suas recuperações e crescimentos a partir desse horror vivido. Apostemos nisso!

Resgate Emocional dos Mineiros Chilenos. Somos co-responsáveis?

Gostaria de compartilhar com todos um emocionante texto de Ana Maria Fonseca Zampieri, Ph.D.: “RESGATE EMOCIONAL DOS MINEIROS CHILENOS. SOMOS CO-RESPONSÁVEIS?”.
Ela fala de trauma, dor, sofrimento... mas acima de tudo, de humanidade, esperança, futuro, cuidado e co-responsabilidade.
Espero que gostem. Vejam o Texto na Integra.