Há algum tempo relatei aqui no Blog minha experiência participando do PAHP (Programa de Ajuda Humanitário Psicológica) em Niterói depois do desastre no Morro do Bumba.
Agora aproveito para divulgar a carta aberta de uma das grandes profissional responsáveis por esse lindo trabalho. Ela traz sua reflexão relatando a situação atual desse drama já esquecido pela mídia.
CARTA ABERTA À SOCIEDADE
A realidade das verdades de uma catástrofe natural é tão complexa quanto a trama do viver a vida.
Em Niterói, Rio de Janeiro, um morro em particular, dentre tantos, caiu nas chuvas de março deste ano. Um morro de nome Bumba, cheio de mistérios do imaginário coletivo, pois um monte de lixo que vira fundação de casas desperta em algumas pessoas a idéia de que o erro um dia aparece, de que a mentira tem pernas curtas, e enfim, que poderes divinos lavaram com a água dos céus e com o preço de várias vidas, a vergonha escondida sob uma comunidade: o lixo!
De diversos tipos metafóricos e nos programas de ajuda humanitária que fizemos em abril e junho deste ano, nós, profissionais do psicotrauma, dos sociodramas, das terapias familiares e da sexologia – interventores em crises e catástrofes, que buscamos colaborar com a resiliência das vidas destes humanos desesperançados por tantas perdas – na meta de prevenir e/ou minimizar enfermidades emocionais que a posteriori podem surgir em torno de vinte por cento dos desabrigados, encontramos a descrição cruel das dinâmicas do que são as verdades.
Uma catástrofe natural, que leva na lama filhos, pais, avós, irmãos, amigos, rivais, animais de estimação, álbuns de fotografias, fitas e DVDs históricos das famílias, documentos, drogas, armas, dinheiro, roupas, dignidade, esperança, fé, entre tantas outras perdas; tem no entorno social – como as pessoas do Bumba, por exemplo – apoio, solidariedade, roupas, alimentos, medicações, abrigos e terapias de traumas. Entre elas está o que o Rotary do Brasil e a F&Z/SP, A TFRJ, a PUC de Goiás, a Delphos do Rio vêm desenvolvendo.
Mas... a vida continua. Os desabrigados de Niterói agora vivem nos abrigos outros traumas: os do confinamento. Morar com estranhos, depois da fase do choque, traz desafios. Todavia, há revelações que as chuvas expõem e os abrigos mostram: das negligências a que nossas crianças, adolescentes e idosos são submetidos; de violências sexuais, emocionais e espirituais que ferem o sentido da dignidade humana; de vozes não ouvidas que, quando superam algum grau do medo, pedem interlocuções.
Por eles e com eles pedimos: “Socorro! Não nos esqueçam aqui, nestes abrigos! Precisamos de cuidados, da esperança de retornarmos a nossos lares, de podermos trabalhar e proteger nossas crianças! Não acabou o problema porque a mídia parou de falar na nossa tragédia! Aqui estamos: confinados, com brigas internas herdadas do morro, com adolescentes engravidando, com crianças abusadas, com idosos sem fé!”
Profª Dra. Ana Maria Fonseca Zampieri
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